domingo, 22 de maio de 2011

Família, valores, tecnologia e o mundo digital.






Hoje as relações entre pais e filhos passam por um momento turbulento nas sociedades ocidentais. É comum vermos pais que não conseguem estabelecer limites aos seus filhos, chegando a casos extremos de agressões sofridas pelos jovens nativos dessa nova geração que envolve muita tecnologia, uma nova forma de se criar os pequenos e pouco tempo para a relação pai e filho.
Temos hoje dois grandes blocos que convivem no mesmo território: os nativos digitais, que têm menos de vinte anos de idade, e os imigrantes digitais. Eles não têm a mesma percepção sobre o tempo e sua vivência. Pelo fato de terem sido criados imersos numa tecnologia que fez o mundo espontâneo e simultâneo, os nativos têm uma noção acelerada de processos e a percepção, aprendizado e modo de agir, que difere dos mais velhos. Essa é a razão de, vez ou outra, esses territórios entrarem em conflito.
Em tempos atrás, quando o pai chegava, todos iam ao encontro dele para um abraço. Ninguém encostava na comida antes do pai se sentar à mesa. Todos comiam juntos e aquele era um momento para a família conversar, contar o dia, sorrir e brigar também, coisa natural. Hoje o que vemos é o contrário, quando o pai chega, cada filho vai para um canto diferente, a refeição, devido ao aparecimento do microondas há uns 15 anos atrás, é feita em diversos horários, de preferência na sala em frente ao televisor ou no quarto lendo seus emails. Aquela conversa gostosa da família reunida foi sendo diminuída ao ponto de não existir mais em muitos lares das grandes cidades.
Devido à competitividade, à necessidade da inserção da mulher no mercado, das distâncias entre moradia e trabalho nas grandes cidades, houve na sociedade ocidental uma diminuição significativa no tempo de convivência entre crianças e adultos, que não compartilham mais uma série de valores antes trabalhados.
A vida profissional é um pedaço da vida, não é a vida toda. Tempo é uma questão de prioridade, quando os pais dizem “não tenho tempo para isso”, então “isso” não é prioridade. É preciso rever quais são, de fato, as prioridades, senão o urgente toma conta do importante. Quando o pai deixa de ir à reunião escolar por estar trabalhando, ele também coloca sua família em segundo plano, transferindo a obrigação de educar seus filhos para a instituição escolar.
O que mais prejudica é que, quando encontram seus filhos, os pais querem compensar a ausência com o atendimento de seus desejos, acarretando no jovem a distorção entre desejo e direito.
Nas gerações antigas a criança era tratada como um “mini-adulto”, sem direito a desejos e vontades, sua condição de criança não era respeitada. O que acontece atualmente é que, talvez tenhamos pecado pelo excesso no sentido inverso, passando a tratar a criança como um “rei do trono”. Tudo passaria a ser motivo de trauma para a criança e para o adolescente. Se uma criança apanhava, era castigada, ou apenas repreendida, já se poderia considerar isso como motivo de trauma.
É claro que não estamos falando da prática de maus-tratos contra a criança ou o jovem, e isso é uma questão seriíssima que vem sendo tratada com muito mais respeito, nos últimos tempos, graças também a essa transformação social que se operou, e que mereceria outro momento de discussão.
Mas, nem de longe, podemos pensar que pais e mães não possam repreender seus filhos. Essa é uma função muito importante no processo de educação. A educação é feita com base no afeto que se transmite ao filho, e com base no limite que se pode dar a ele também. A criança precisa conhecer o amor, a amizade, o respeito e a consideração, mas também, quais são os limites que ela tem de respeitar, entre a vida dela e a do outro, para que ela possa tornar-se um ser humano apto para a vida em comunidade.
É só entrar no mundo dos famosos e encontraremos uma série de “fórmulas perfeitas” forjadas por artistas para esconder suas maiores deficiências, a falta de tempo para os filhos. Em um país tão grande quanto o Brasil, o cantor, apresentador ou ator precisa se deslocar constantemente para conseguir dar conta de seus compromissos com o seu público, colocando-o na frente de seu maior bem, a sua família. Então é fácil descobrirmos a causa de tantos divórcios no meio artístico, tantos escândalos e brigas entre pais e filhos, onde uma cantora pop internacional é julgada por maus tratos ou uma ex-modelo acaba agredindo publicamente seu filho. No ambiente da televisão, é difícil saber quem realmente mantém uma relação saudável com os filhos, poderíamos citar a família do Luciano Hulk ou a relação linda e plastificada entre o Fábio Junior e seu filho no Faustão cantando juntos, mas família, a gente só sabe quando está dentro dela.

(Marcelo Fávaro é professor de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino de São Paulo e acadêmico da Universidade Federal de São Paulo)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Dica Teatral



















“Uí”

O Grupo Teatral da Casa de Cultura de São Miguel Paulista apresentou ontem às 20 horas no CEU Parque São Carlos a peça teatral “Uí”, com a direção de Roberto Taty. A equipe é composta em sua grande maioria de pessoas iniciantes na arte teatral e conta também com o auxílio de atores profissionais que emprestam sua experiência ao grupo e ao mesmo tempo, aprendem com aqueles que, no palco profissional do CEU, dão seus primeiros passos como artistas.
O curso iniciado em março desse ano na Casa de Cultura de São Miguel tem como objetivo despertar a paixão dos jovens pela arte teatral, assim como prepará-los para os obstáculos que virão a seguir, como ter atitudes cidadãs e se dar bem no mercado de trabalho. – No curso nós procuramos despertar o que há de melhor neles, é um trabalho de investigação e construção de cidadania. Diz o professor Roberto Taty. – De cada vinte atores formandos, apenas dois ou três seguem a carreira artística, o restante, apesar de trabalhar em outros setores, sempre carregarão os ensinamentos de palco com eles, como por exemplo, utilizar corretamente sua expressão corporal, o tipo de tom de voz adequado a cada situação, o ator é uma pessoa mais sensível, dinâmica, se adequa melhor às mais diversas situações impressas pelo mercado de trabalho.
Camila de Campos, atriz de 14 anos do grupo confirma – Melhorei meu desempenho na escola depois do começo do curso, tenho mais facilidade em me expressar com o público, além de melhorar minha leitura. Mais uma atriz iniciante, a jovem Cristal afirma – É uma honra poder começar em um teatro profissional, com toda essa estrutura, são experiências que carregarei por toda a vida.
Uí é uma colagem de texto, diz o diretor, vários trechos de peças diferentes são unidos para criar um espetáculo só. Em uma situação comum, temos apenas dois ou três personagens principais, ou seja, que se destacam. Resolvi apostar em uma apresentação com vários recortes, pois os atores têm mais chances de interpretar situações diversas. Como é o caso de Ivan, que interpreta em uma cena um amante que vira travesti e em outra cena um padre que se enrola com o próprio sotaque. – Sou professor de história e busquei o curso de teatro para aprimorar meu desempenho em sala de aula, além, é claro, de ser um sonho antigo.
Com o fim do curso, os alunos não pensam em parar por aí. No começo do ano recomeçam as aulas, agora com dois grupos, um de principiantes e outro, este já com a presença dos alunos de 2010, com um grupo já avançado.
Esta iniciativa da Casa de Cultura de São Miguel vem trazendo uma nova perspectiva do cenário cultural do bairro. Com cursos que variam entre yoga, dança do ventre, capoeira, teatro, teatro vocacional, canto, cavaquinho e dança de salão. São Miguel sempre foi um pólo cultural e agora vem demonstrando o surgimento de uma nova geração de artistas apaixonados pela região. Sacha Arcanjo, Zulu de Arrebata e Edvaldo Santana já mostraram ao Brasil a força da cultura de São Miguel, agora esperamos um novo movimento cultural no bairro. A Casa de Cultura de São Miguel está localizada na rua Irineu Bonard, n. 169, na Vila Pedroso e todos seus cursos são gratuitos e abertos à população.